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ROSA DOS VENTOS

Somos lugares. E viver nada mais é do que ir sendo habitado e devastado até a degradação; ou então ser povoado pelo deserto até o abandono. Há metrópoles caóticas e terrenos baldios inóspitos adentrando túmulos todos os dias.

Nasce um lugar e o rebento é ensolarado, vegetação rala e com potencial para fauna e flora produtivas. O pequeno lugar humano é um convite à habitação saudável. Povoam-no os parentes interessados/eiros no localzinho de terra fértil, praticamente um terreno em que “se plantando, tudo dá”.

Tanto fazem povoar que não há espaço para os frutos. Adubo não falta. Irrigação muito menos. A terra acarinhada, antes mesmo de dar broto, é revirada por maquinário. Toma sol, bate estaca, constrói, paga IPTU, põe cerca, remexe o solo, é pro seu bem, nasce nada aí, põe remédio, põe mais, nasceu plantinha, cresce logo, preciso comer, preciso vender, preciso pagar.

A casa aumenta, mais estaca para bater. Vem um cão e faz um xixi logo penetrado. Somos lugares de terra. A terra fofa, agradável ao toque, tudo aceita, tudo absorve. Há quem seja terra produtiva, repleta de vegetação rica e variada, até vir geada ou enchente. Há terra rachada pelo sol ou encharcada pela chuva...há terra de excessos nada produtivos. Há terra das flores que ofertam beleza ou dos frutos que ofertam prazer; são as terras subservientes, quiçá caridosas.

Terras que produzem na mediocridade do agrotóxico, respondem apenas ao estímulo artificial. Há aquelas que respondem ao tempo de um fruto cair da árvore, apodrecer, infiltrar a semente e enfim renascer...essas com as quais não se tem paciência hoje em dia...tempos em que não há tempo para o renascimento.

Mas viver é mesmo ser povoado e despovoado ao longo do tempo. Quem mora aí? Há moradia, visitação ou depredação? O que você, lugar, oferece? O que foi plantado? Há produção? Há colheita?

Conviver é permear lugares, sentir as terras fofas, rachadas, encharcadas, contemplar as flores de uma (para que arrancá-las?), provar os frutos de outra (não se esqueça de cuspir a semente).


Então, o lugar-terra um dia acaba. Nós, que sempre fomos terra e barro, temos que lidar com a realidade de ser pó, o que, por lugar-comum, acreditamos ser o fim. Há partícula menor que o pó? – perguntamos, antes mesmo de nos tornarmos um. Acontece que lugar não é sempre terra, barro, pó, partícula. Lugar imaginário? Virtual? Abstrato? Quem estar agora? Onde ser agora? Somos lugares sem endereço.



Escrito por Bruna às 17h32
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SOBRE PESO

Já é janeiro de 2017 e eu prometi a mim mesma que não mais deglutiria o peso do meu peso. Nessas promessas de fim de ano, falar sobre peso mastigava um quarto ou quinto lugar de listas que não passavam do terceiro item há uns bons anos, então aqui estou cuspindo, mesmo que minha infância insista em repreender até mesmo que eu escreva a palavra cuspe. Lembro-me de pensar que era palavrão, até ler no gibi da turma da Mônica, então deduzi que cuspe não era palavrão, nem idiota, mas que eu podia falar cuspe e não podia chamar alguém de idiota.

O fato é que a gente não pode cuspir comida, é feio, coisa de criança mal educada. Nem deixar comida no prato, pois as crianças da África e o coração de quem fez a comida serão muito prejudicados. Então a gente engole, e por não querer magoar minha avó aprendi a comer cebola, por não querer magoar um monte de gente aprendi a comer um monte de coisa...que bom. Confesso que, naquela época, eu já tinha noção de que o resto do meu prato não iria para a África, então aprendi a comer coisa boa para o paladar e para a saúde, elogiar e ser a convidada mais agradável de qualquer refeição à mesa. Anfitriões lisonjeados, eu alimentada, mas magrinha, pois metabolismo infantil é algo impressionante.

Impressionante também é como a infância explica tudo. Comida sempre foi motivo. Para tristeza, alegria, tédio, tudo. Junte a isso uma família unida, boa de cozinha e exagerada na quantidade e pronto, é feijoada para o aniversário da tia, é doce para acalmar a criança, bolo para preencher a tarde televisiva e até mesmo o prato predileto a quem pegou um simples resfriado. Comida é preenchimento, presente, protagonista de festa, remédio, amor. Minha relação com a comida foi sempre das melhores: ela me dava o que eu queria, seja lá o que fosse, em qualquer circunstância. Ela me entendia. Esse eterno “venha a nós o vosso reino” só teve fim quando comecei a engordar, pois então percebi que não era de graça, tinha um preço, ironicamente, gordo.

Eu era uma adolescente com um corpo precocemente curvilíneo e uma visão distorcida. Pensava que quadril era gordura, seios eram gordura, pernas eram gordura. Hoje, vejo fotos e procuro as gorduras que eu via. Mas, por mais que eu pensasse assim, recebia elogios e isso neutralizava minha autoestima. Comecei a fazer academia e descobri o maravilhoso mundo de quem come besteiras e continua com um corpo legal, pois metabolismo adolescente também é maravilhoso.

Então essa adolescente se torna uma jovem adulta que, apesar de ganhar seu próprio dinheiro, não faz sua própria comida. Come comida da mãe, do pai, da irmã, percebe que pode comprar o que comer, jantar fora para tirar a mãe do fogão, tomar um café com o pai no meio do expediente, tomar um sorvete com a irmã nas horas vagas, fazer orgias alimentares com as amigas, comprar algo porque deu vontade. Deu vontade porque deu tristeza, alegria, tédio, tudo.

E, porque deu tristeza, engordei vinte quilos. A companheira do sorvete tinha ido embora para sempre. Logo depois, um curso mal sucedido como cereja do bolo. Era muito a suprir, a compensar, era muito pesar, muita comida, muito “porque deu vontade”, muito “porque eu mereço”, muito “porque sim”, muita palavra, comida e lágrima engolidas juntas. Então acho que se instalou em mim o que chamam de compulsão alimentar. Não diagnosticada, claro, porque minha mente é tão louca que temo, ao receber o diagnóstico, me permitir crises com o respaldo médico de que “tenho um problema”. Então venho na ignorante jornada de me autocorrigir, de ter poder sobre minhas escolhas e, consequentemente, sobre meu peso.

Todas as falhas tentativas de falar sobre peso foram interrompidas por comentários dizendo que eu estou exagerando, que não sou obesa, que há pessoas piores e que há assuntos mais relevantes para eu me preocupar. Acontece que não é apenas sobre peso, é sobre sobrepeso, sobre o peso do corpo e da alma, sobre o peso das coisas e sobre a pessoa que não se aceita no sobrepeso. Há até quem julgue minha não aceitação com a visão reducionista de que, logo eu, que decidi me dedicar às letras e aos estudos, estou me importando com padrões estéticos sociais. Não é isso, mas poderia ser, até porque não consigo dissociar um corpo saudável de uma mente saudável ou de um intelecto saudável.

O que é, na verdade, é que sei que, o sobrepeso que existe aqui, por mínimo que seja, ainda é “sobre”, é acima, e, pior, é fruto de todos os outros “sobre” que a alma quer alcançar e não consegue. Eu me olho no espelho e tenho sempre a sensação de que estou assim, mas não sou assim.


Minha rotina de exercícios físicos se mistura com a de professora, quase como uma culpa de cuidar do corpo enquanto nem terminei aquele curso mal sucedido, mas é algo que me dá esperança, que me anima, que supre aquelas perdas de alguma forma maluca e endorfinada. Diferente da minha relação com o espelho e com a comida, a com os exercícios é amorosa. Seja puxando ferro, correndo, dançando ou pedalando, sinto que o preço é mais justo. Suar parece libertar. Não é à toa que o suor se parece tanto com a lágrima e com o verbo. Eu saio da academia e preciso comer. A academia durou uma hora e vou precisar comer várias vezes ao dia...os pensamentos sabotadores começam a argumentar que suei muito, que peguei peso, que mereço. Não mereço isso. A luta começa novamente, a cada refeição, a cada olhadela no espelho, a cada “sobre”, a cada peso. Mas, hoje, não engolirei lágrimas, suor nem palavras (só quem já os engoliu sabe da insuportável acidez). E, ao falar sobre peso, me sinto mais leve.



Escrito por Bruna às 21h55
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Anacrônica

A persistência da Memória (Salvador Dali)

Neste momento, aplicando simulado em uma das três escolas e só estou aqui escrevendo porque esqueci em casa os trilhões de provas e redações que tenho a corrigir. Escrevo com culpa; talvez por isso meu blog esteja tão deserto há tanto tempo. Talvez também isso nem vá ao blog, pois estou tendo tempo para escrever, mas para digitar e publicar já são outros quinhentos.

O fato é que venho novamente falar do tempo. Já me disseram que o blog é monotemático, talvez por isso também monocromático, monótono, monólogo. Mas não falo hoje sobre a relatividade do tempo, nem sobre o tempo apressado. Eu falo sobre o tempo que me foge, o tempo que nunca foi meu, ou talvez eu nunca tenho sido dele?

Uma suposta “crise dos 30” tem me feito pensar sobre as fases anteriores. E... como me lembro delas! Queria lembrar menos, e fico pensando que a velhice talvez para alguns seja tão dolorosa por isto: é muito lembrar para pouco porvir. Então eu me lembro de que nunca vivi o momento exato das coisas.

Eu era uma criança “adolescentizada”. Por ninguém, por mim mesma. As bonecas eram encostadas; gostava mesmo era de saia rodada para dançar, sapatos e acessórios de mãe e de tia. Gostava de sair com a família para comer e conversar. Parquinho nem pensar. TV? Novelas...torcia para as mocinhas, mas admirava as vilãs, sempre mais autênticas e bem vestidas. Entre Ruth e Raquel, eu tive uma boneca chamada Raquel, com cabelos azuis e vestido curto...outra encostada, coitadinha. Não me lembro de ter feito birra na minha infância, sentia vergonha alheia ao ver crianças birrentas. Meus pais nem precisavam dizer: “tá vendo que feiura criança dando vexame?” Eu não dava.

Aprendi a ler e a escrever muito cedo e boa parte do que sei fazer hoje se baseia no fato de que eu era uma imitadora nata e quieta. Imitava os adultos, não as crianças. Isso explica minha caligrafia de professora (das professoras) desde antes de eu ser uma, como também meu gosto musical datado de antes do meu nascimento e minha habilidade com a dança (assistia muito ao balé do Faustão). Precoce talvez seja a palavra mais óbvia, mas a mais coerente é apressada. Eu queria chegar logo à adolescência.

Cheguei. E novamente desambientada. Cheguei já adulta, eu desconfio. Meus amigos me pareciam “aborrecentes” demais, inconsequentes demais. Não brigava com meus pais, não fui rebelde. Não pertenci a nenhuma tribo e adorava quando me diziam que eu aparentava ter 18 anos aos 14.

Aos 14, trabalhava enquanto todos tomavam sorvete na praça. Não se compadeça, eu escolhi e amava isso. Trabalhei como balconista na farmácia do meu pai e como secretária no consultório médico da minha tia. Meu objetivo? Ganhar um trocado para comprar um jeans joinha e pagar um sorvete para as amigas na praça. No fim de semana, claro. E ter orgulho de mim, porque a essa altura eu já sentia vergonha de pedir dinheiro aos meus pais. Na adolescência, eu só sonhava com a fase adulta.

Fase adulta, pronto, aqui estamos. “E agora, José?”, com o que sonhar? Com a velhice, com a morte, com outra vida? O tempo novamente não é meu, eu não sou dele, não estou nele. Estou, às vezes, na adolescência que se aborrece com opiniões alheias, que se sente pressionada, que quer aproveitar a vida, fazer aula de dança, academia, inglês, unha, cabelo, intercâmbio, maquiagem, comida rápida e cheia de sódio, a cesta, manha, brigadeiro de colher para assistir ‘De repente 30” – sugestivo, não? E outras vezes me pego na infância de querer colo de mãe, mimo de pai, de ter alguém que faça minha comida, minhas compras, meu dia feliz.

E do futuro, quero da velhice a sabedoria, a família formada reunida no domingo, a estabilidade financeira, os laços de toda uma vida. Eu tenho medo da morte porque não consigo conceber a possibilidade de morrer sem entender por que eu trabalho tanto, por que me casei e quero ter filhos. Acho que se eu morresse hoje, morreria infeliz. Não que eu o seja hoje, mas o que faço da minha vida hoje é por um futuro que não sei se chegará, por uma velhice que não sei se será tranquila, por um filho que não sei se virá.

Talvez esteja aí minha crise dos 30 que, agora sei, não é suposta. Tenho 29, vivo para os 50, com sentimentos de 12 e atitudes de 18. Além disso, os 30 não me vêm como preconizavam os 20: bem-sucedida, bem-resolvida, linda, magra e mãe. Não enlouqueço porque, apesar de não saber em que tempo estou, sei quem sou e me conheço como ninguém. Sei que é uma fase e consigo prever que, na casa dos 40, vou me libertar dessas cobranças internas de fazer parte do tempo, de seguir o tempo certo das coisas. Vou rir desse texto, sentir vergonha dele. Talvez o apague. Certamente apagarei, junto com o blog inteiro, comendo brigadeiro de colher. Temos dez anos para ler essas baboseiras, se aguentarmos.

Prevejo meus 50 para frente como deveria ter sido minha adolescência: curtindo mais, trabalhando menos, cheia de atividades prazerosas e pertencendo a uma tribo – quem sabe o grupo da 3ª idade do bairro? Enquanto isso, a fase adulta me pega pelo colarinho que eu mesma tenho que lavar, sequestra-me o tempo, como de praxe, e me diz o que ainda não realizei, o que realizei no tempo errado, o luto que nunca vivi, as decepções que não chorei. Como agora, em que eu deveria estar terminando um trabalho da pós (e não do mestrado, que eu já deveria ter terminado), mas estou digitando aquele texto manuscrito no tempo em que eu deveria estar corrigindo redações. Tudo errado. Tudo vivido no tempo errado.  Não tenho o tempo. Não tenho tempo. As redações me esperam. O tempo não.



Escrito por Bruna às 15h33
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O VÍCIO

ERA MANHÃ DE SÁBADO ÚTIL. ABRIU OS OLHOS E SE PERDEU EM QUANTO TEMPO FITARA O TETO PLANO, VAZIO E CLARO. TRANSFORMARA-SE EM FORMIGA E CAMINHAVA PELAS MONTANHAS E VALES DE CIMENTO DAQUELE TETO. AS ENTRANHAS CLARAS E FRIAS DO QUE ANTES PARECIA LISO.

DEIXOU DE SER FORMIGA, ESFREGOU OS OLHOS E O TETO VOLTOU A SER PLANO, VAZIO E CLARO. OUVIA RASPAS DE VOZES NA COZINHA. FALAVAM SOBRE ELE E IMEDIATAMENTE SE LEMBROU, DEDUZINDO O ASSUNTO: A NOITE ANTERIOR.

AS CENAS VINHAM-LHE COMO NUM TRAILER DE CINEMA: RÁPIDAS, BARULHENTAS, PARTES QUE NÃO FORMAVAM UM TODO. ANSIEDADE, ANGÚSTIA, VONTADE, NECESSIDADE, DESESPERO, LOUCURA, CEGUEIRA, VORACIDADE, PRAZER, PRAZER, PRAZER, CALMA, SILÊNCIO, PAZ, SATISFAÇÃO, INSATISFAÇÃO, ARREPENDIMENTO, CULPA, DEPRESSÃO. PRONTO, OS SENTIMENTOS ESTAVAM EM ORDEM CRONOLÓGICA, MAS DOS FATOS SE LEMBRAVA AOS POUCOS.

SIM, ELE VIOLENTARA O BREU E O SILÊNCIO DA NOITE PASSADA COM A PORTA BARULHENTA E A LUZ ACESA. BANHARA-SE NA MADRUGADA, FAZENDO BARULHOS QUE SÓ ACONTECEM QUANDO NÃO QUEREMOS ACORDAR NINGUÉM. ELE NÃO QUERIA, DE VERDADE. MAS OUVIU PASSOS E CHORO. AO SAIR DE SEU LONGO, REVIGORANTE E AO MESMO TEMPO SONÍFERO BANHO, A MÃE LHE VEIO, SENHORA, COM CHINELOS E VASSOURA, A ESTUPRAR O SILÊNCIO JÁ VIOLENTADO ANTES, MAS AGORA COM XINGAMENTOS ENTRECORTADOS POR LÁGRIMAS. ATINGIA-NO COM FORÇA, COM RAIVA. ELE CURVAVA-SE À MATRONA COMO NOS TEMPOS DE MENINO.

REPETIA-SE ALI UMA CENA DE INFÂNCIA TRAVESSA. NO ENTANTO, A MÃE HOJE VELHA, CANSADA, INFELIZ; E ELE, O MESMO GAROTO DE SEMPRE. A SURRA FAZIA DOBRAR A DIFERENÇA DE IDADE ENTRE MÃE E FILHO, ALÉM DE TER OUTRO PODER: O DE RELEMBRAR A MENINICE DE MODO TORTO. OS SOCOS E TAPAS NÃO MAIS PUNIAM PARA EDUCAR, MAS CONCENTRAVAM TODO O DESESPERO DE UMA MÃE QUE NÃO MAIS VIA COMO EDUCAR UM MARMANJO. ELA ESTAVA EXAUSTA; ELE, MACHUCADO. TRANCOU-SE NO QUARTO E, COM OS COTOVELOS E A CABEÇA ENTRE AS PERNAS, LEMBROU-SE DO PASSADO RECENTE QUE O LEVOU À SURRA.

ELE NÃO QUERIA, JURAVA A SI MESMO QUE NÃO. PROMETERA QUE SERIA MAIS FORTE E QUE SUA VIDA MUDARIA PARA SEMPRE. JÁ NÃO SABIA MAIS QUANTAS VEZES REPETIRA ESSE MANTRA, MAS DESTA VEZ SERIA DIFERENTE...E NÃO SABIA TAMBÉM QUANTAS VEZES DISSERA QUE SERIA DIFERENTE. BRIGARIA CONSIGO MESMO E CONSEGUIRIA. NÃO TINHA CERTEZA, SÓ FÉ. ELE ESTAVA DETERMINADO A MUDAR. MUITO DETERMINADO A MUDAR. DETERMINADO A MUDAR. DETERMINADO. PRECISAVA SAIR.

SERIA SÓ ESTA VEZ, A DESPEDIDA. SAIU. SÓ ESTA VEZ, A ÚLTIMA, PARA APROVEITAR. A POSTERIOR ABSTINÊNCIA RELEMBRARIA TÃO PRAZEROSO MOMENTO. SERIA A ÚLTIMA E A MELHOR DE TODAS. A DERRADEIRA.

ENTREGOU-SE. NÃO HAVIA MAIS ALI UM SER-HUMANO. ELE ERA O UNIVERSO SILENCIOSO POR ONDE CORRIAM ONDAS DE PRAZER INFINITO...INFINITO...EM FINITO SE ENCONTRAVA ENTÃO...FINITO, ACABOU, COMO ASSIM? JÁ? ANESTESIADO, PENSOU NO NUNCA MAIS, NO INFINITO NADA, CONTRÁRIO AO TÃO RECENTE TUDO. A MAIS CONCRETA DEFINIÇÃO DO NADA MATERIALIZAVA-SE EM SEU CORPO, VOLTANDO PARA CASA E NADA PRONTO PARA UMA SOVA. DEPOIS PENSARIA NA POSSIBILIDADE DE RECOMEÇAR. AGORA ELE APANHARIA E SÓ.

FATOS RELEMBRADOS. AGORA ERA SE LEVANTAR E TENTAR DIÁLOGO COM OS DONOS DAS RASPAS DE CONVERSA NA COZINHA. PROVAVELMENTE MÃE E IRMÃO. PROVAVELMENTE MAIS UMA BRIGA. ESTAVA PREPARADO. AO TENTAR SE LEVANTAR, VIU-SE CONECTADO A FIOS E, ANTES QUE IDENTIFICASSE A QUE ACABARA DE SE DESPRENDER DOLOROSAMENTE, VIERAM-LHE À MENTE AS CENAS FINAIS DO TRALIER DE CINEMA, DESTA VEZ MAIS FORTES, MAIS CURTAS E MAIS BARULHENTAS: BRAÇOS ATADOS, CHORO GRITADO, FILHO PRESO, MÃE MORTA.

NÃO HAVIA MAIS ALI UM SER-HUMANO. NEM MESMO A FORMIGA DESBRAVADORA DE TETO. HAVIA O NADA E SEU UNIVERSO SILENCIOSO.

 



Escrito por Bruna às 19h01
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CORPO DESUMANO

A pele flácida denuncia que já abrigou naquelas bochechas muitos sorrisos repletos do sangue quente nos cora a face.

Logo acima, os vincos desenhados ao redor dos olhos confirmam. Sim, já foram muito espremidos pela felicidade.

A testa também desenhada com caminhos mais longos certifica que as muitas dúvidas e preocupações da vida, no final das contas, só marcam a pele.

Há agora um sorriso verdadeiro, já que não mais se apresenta alinhado em brancos dentes. Ainda que tímido, é puro e livre de vaidade.

As mãos, trêmulas, logo tentam escondê-lo, mas desistem. O esforço para omitir é maior que para sorrir.

Elas então repousam sobre o colo, uma sobre a outra, quase imperceptivelmente inquietas, acostumadas ao trabalho diário e longo e revelam, francas, o mapa de rios por debaixo da pele transparente, mas ao mesmo tempo estampada pelos sóis da vida. Rios esverdeados, nunca dantes tão imponentes, por onde correm a seiva humana carregada de missões por esse lugar já tão conhecido que é o corpo e seu cansaço.

A gravidade se materializa em pele. O corpo encontra conforto tão curvado quanto à sua primeira posição, fetal, ainda tão desprovido de vivência, mas já tão dotado de vida. O ar já faz com pressa e má vontade o seu trabalho, deixando a fama de cansado aos velhos pulmões que, ofegantes, trabalham com mais afinco do que nunca.

Os olhos, esses túneis com destino ao passado e toda a sua história, são ameaçados pela pele que insiste em fechá-los antes do fim. Haverá esse tempo, mas, enquanto isso, os olhos resistem, mais lacrimosos, vendo tudo o que já foi visto sem surpresa, mas não sem beleza.

A mente assiste, sábia e nostálgica, a tudo o que foi vivido. Talvez esteja cansada. Talvez ainda tenha planos. Talvez apenas espere a morte. Ela que, mesmo madura, não envelhece. Ela que não foi marcada por sinais do tempo; do contrário, absorveu-os. Ela, a mente, muito mais viva e carregada de história do que antes, assiste ao triste, embora natural, morrer do corpo.

E o coração para.

 



Escrito por Bruna às 16h26
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AO MEU MEIO

 

Não suporto a responsabilidade nem do último nem do primeiro lugar.

Não me anima nem um pouco ser a melhor, muito menos a pior.

Odeio ter que escolher entre o tudo e o nada.

Meu clichê favorito é “nem tanto ao céu, nem tanto à terra”.

E odeio o “oito ou oitenta”.

Abomino a ditadura e a libertinagem.

Nem quarenta nem dez graus de temperatura.

Tudo em excesso me faz excessivamente mal,

Até as coisas excessivamente boas.

Nem brilho nem breu: luz.

Nem barulho nem silêncio: som.

Nem superlativos nem só substantivos: adjetivos.

Há os que erroneamente dirão que habito na dúvida, na inconstância,

No meio-termo, em cima do muro, nem lá nem cá.

Não.

Minha terra é fértil.

Não precisa de aditivos, mas morreria sem plantio.

Desconfiarão os extremados de que aqui não há vida.

Pensam que ela só existe na intensidade, nos exageros.

E eu os direi que só aqui há vida

Correndo sem pressão nem indiferença,

Sem pressa nem inércia.

Vivo na confortável e saudável

Terra do Equilíbrio.

 



Escrito por Bruna às 20h09
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ALMA DE AÇÚCAR

Não, nada contra os dias chuvosos e frios. Neles, assumo-me preguiçosa sem culpa e me trajo de uma expressão tão fechada quanto o céu. Prendo os cabelos, os botões e as janelas. Permito-me deitar e me cobrir com aquela manta da infância que resiste ao tempo e tem o dom de trazer lembranças que embalam meu descanso em posição fetal.

Lá fora, a garoa me desafia a fazer silêncio para ouvi-la. Barulho de pensar na vida. Barulho de pensar na morte. Só a garoa tem esse poder. A chuva já é demais, já me distrai, fazendo-me pensar em trovões e travas. Apenas a garoa é tão desesperadoramente quieta, tal como o silêncio.

É preciso parar para ouvi-la. É desafiador enxergá-la através da janela. É angustiante senti-la.

Encolhida, coberta e sombria, olhando-a pelo vidro: assim me sinto em dias chuvosos e frios. Nada contra, mas me sinto triste. E não há nada contra a tristeza.

 



Escrito por Bruna às 18h31
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 A FIEL PROMÍSCUA

Amo poucas coisas na vida, mas gosto de muitas outras. Às vezes, gosto tanto que chego a pensar que amo. E pode ser que eu ame. Só não rotulo amor com certeza devido ao pouco tempo de duração e ao sentimento de traição que tenho ao amar algo que não seja a Língua Portuguesa, esta que ultimamente vem me dando desgosto ao se apresentar como ciência, dizendo se chamar Linguística e me forçando a vê-la como tal. Justo ela, que amo pelos motivos mais simples, mais cotidianos, mais genuínos.

Aceitemos. Amores têm suas desavenças. Aliás, só os amores. As paixões, essas muitas coisas de que gosto, são perfeitas, já que, antes que não mais sejam, eu as troco por outras tantas coisas de que gosto. E o amor verdadeiro está lá, suportando essa promiscuidade toda. Na verdade, não devo me sentir culpada pela traição, uma vez que ele, com um seguro ar de superioridade, assiste à minha jornada pelas paixões, com a plena consciência de que nunca será trocado. Talvez por isso se acomode e me dê desgosto, como forma de vingança. Mas com a Linguística (está bom assim?) converso depois.

E nessa busca por paixões, coincidentemente(?) o que me aparecem são as atividades físicas. Como se fossem uma fuga ao exercício mental. O equilíbrio entre mente e corpo. Algo em que eu não precise pensar tanto, apenas suar e liberar serotonina e endorfina. Afinal, as paixões são sempre mais agitadas que o amor.

Na adolescência, foi a Musculação. Descobri na atividade que eu poderia ser saudável sem precisar ter uma relação íntima com nenhuma bola, fosse ela de qualquer esporte, já que minha relação com bolas sempre resultava em óculos quebrados, hematomas e títulos de “café-com-leite-da-turma”. E, apesar de ser uma paixão, tenho consciência de que ela será eterna, mesmo se/quando eu me cansar dela, o famoso “mal necessário”.

Um pouco depois, como num remember da infância, a Dança, que sempre me fez pensar: “ah...se eu não tivesse me casado com a Língua Portuguesa, se eu tivesse te namorado mais cedo, você seria minha, ah...se seria!”. Deixava-me feliz, acariciava-me o ego, prometia-me maravilhas. E eu, naquela ingenuidade apaixonada, acreditava um dia ser como era na infância, ou como seria se eu tivesse dançado desde pequena e não tivesse parado. Na verdade, eu poderia ser o que quisesse, mas não pude. Não pude dar à aparentemente descompromissada Dança a seriedade que ela exigia de mim. Hoje, estamos dando um tempo. Voltarei para ela assim que a crise com a Língua Portuguesa acabar. E voltarei mais consciente de que não serei dançarina, e sim uma eterna amante da Dança.

E, por último, a mais recente e perigosa das paixões. Perigosa porque é daquelas que te toma em seu momento de fragilidade, que aparece quando você está em crise com seu verdadeiro amor. Que te dá colo, esperança. Ao mesmo tempo, tão distante, tão aparentemente impossível. Ela aparece quando o amor e todas as outras paixões já te cansaram, quando o desânimo toma conta, quando nada parece mais interessante.

Só precisei de um tênis. Diferente. Não poderia ser o de academia nem o de Dança. Troquei as manhãs no computador pela rua. Tímida, obesa, caminhava com a sensação de que todos me olhavam. Então, nos trechos de menos movimento, arriscava trotar. Os joelhos, acostumados ao conforto da cadeira do computador, começavam a reclamar. Parava e caminhava novamente, já com aquela sensação de que, se alguém tivesse me visto tentar correr naquele instante que não durou nem um minuto, estaria rindo por dentro do meu constrangedor despreparo.

Os minutos foram aumentando na medida em que o joelho ficava mais confortável. Claro, não havia mais tanto peso a carregar. Nos fones, qualquer batida que estivesse em igual ou superior velocidade que meus passos. E cada minuto a mais trotando, mais suor, mais felicidade, menos vergonha. Dia a dia. Semana a semana. Mês a mês, de janeiro para cá, e hoje me vejo apaixonada pela Corrida.

Cinco quilômetros, de três a quatro vezes por semana. Vários presentes típicos dessas paixões que te agradam sempre para te manter apaixonada: um tempo menor, uma dor a menos, uma respiração menos ofegante, um passo a menos de caminhada, um passo a mais de corrida.

Em breve, a primeira prova de 5km. Acompanhada dos meus tênis, minha música agitada e meu amor (não a Língua Portuguesa, mas o homem maravilhoso com quem estou há 9 anos), vou participar, não competir. Vou correr sem dar nenhuma satisfação à Dona Linguística. Vou viver uma das minhas paixões. Sem medo de estar sendo promíscua, aventurando-me em paixões sem fim. Serei mais fiel do que nunca. A mim mesma, às minhas vontades, às minhas paixões.

Na cadência dos passos ainda não tão rápidos, relembrarei do que eu era, do que me tornei, do que consegui fazer com minhas manhãs livres. Não pensarei nas minhas canelas que não são finas, meus quadris que não são nada estreitos. Olhando para o lado, meu amor estará comigo, acompanhando meus passos curtos e cansados só porque quer, já que ele pode ir mais rápido e mais longe. Assim é um amor companheiro. Com a Língua Portuguesa converso depois.

Vou correr. E, mesmo sendo a última a chegar, ainda assim terei vencido.

 



Escrito por Bruna às 16h33
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POR QUE VOCÊ ME LÊ

Agora que começou, continue. Até porque, a essa altura do campeonato, eu já escrevi a última linha e, como bem diz sua mãe, é falta de educação deixar os outros falando sozinhos. O motivo pelo qual você me lê é tão complexo quanto o motivo pelo qual escrevo. Então, pegue um café, dê uma coçada nos olhos, uma bocejada e prossiga.

Pronto? Então vamos lá. Eu escrevo porque sou um narcisista. Pior, egoísta e até mesmo exibicionista. Antes de digitar os caracteres nesse espaço em branco, eu pensei. Eu seria humilde se parasse aí, no pensamento. Menos humilde um pouco se eu falasse. Mas não, além de pensar, quero registrar. O registro alcança mais que um grito. E outra: falar é arriscado ao exibicionista, já que a qualquer hora ele pode ser interrompido por um “mas...”, uma pergunta, uma tosse, que seja.

Escrevendo, eu te obrigo a me ler até o final antes de expor sua opinião. Mais um adjetivo para mim: autoritário. Você não pode parar entre o segundo e o terceiro parágrafo e me questionar. Leia-me todo, depois fale. Isso se até lá os meus argumentos te deixarem criticar alguma coisa. Pode ser que você desista. Tomara que sim.

Tomara, porque, apesar dessa banca toda, eu sou é um covarde que precisa de aprovação. Como um adolescente que precisa ser aceito na galera, sabe? Eu escrevo pensando se os outros vão gostar ou não do que escrevo, e, intimamente, não suportaria críticas. No fundo, crio frases pensando em qual delas você gostaria mais. E então, de qual você gostou até agora? Não, não responda. Você não pode e eu não quero.

Então, basicamente é isso: escrevo porque sou um babaca. Peça-me para expor minha opinião em público e eu me borro todo. Fácil, né? Floreio minhas palavras, tenho tempo de consultar o dicionário, a internet, o mundo, para me fazer passar por alguém mais interessante e inteligente do que sou.

E você aí, me lendo. Não desistiu ainda? Claro que não. E sabe por quê? Porque você quer travar uma briga comigo. Não me venha com esse papo de que quer adquirir conhecimento ou se distrair. Você me lê porque eu te desafiei lá no título, porque eu te citei, e você é curioso demais para ler o pronome “você” e não fuçar para saber do que se trata.

É por isso que as propagandas te pegam tão facilmente. Por isso sua casa está cheia de coisas que você comprou e não usou. Por isso caiu em tantas armadilhas de relacionamentos. Por isso se decepcionou tanto com amigos. Por isso canta músicas podres. Por isso se conhece tão pouco e já tem a sensação de que te conheço muito. Você não pode ouvir ou ler a palavra “você”. Você não suporta passar ileso por ela. Você não consegue não a ler. Leia mais uma vez: você.

Tudo bem, eu vou parar de te provocar. Mas, cá para nós, somos dois covardes. Pode ser que a gente se sente num café e não saia meia-dúzia de palavras. Pode ser que nem pensamentos saiam. Pode ser que só tomemos um café, pacificamente. Mas, deem-nos as palavras escritas, e a guerra começa. Que vença o melhor.



Escrito por Bruna às 21h55
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AO ESPELHO

Um brinde, a ele que faz com que 24 segundos em sua frente me remetam a 24 anos. A ele, vidro incomum, que não reflete somente traços fantasmas, mas sim um desenho nítido da criatura que o olha, acostumada, indiferente, porém sempre que possível.

A esse objeto que, instantânea e descaradamente, apresenta-me uma figura pronta que demorei anos a construir. E esse olhar diário e constante de nossa figura ao espelho, esse olhar distraído e até mesmo obrigatório, como que para conferir algo fora do lugar, são fotografias que captam, dia a dia, a momentaneidade. Um fio de cabelo diferente aqui e ali que, ao juntarmos as fotos depois de um tempo, torna-se invisível diante do grande stop motion em que as figuras se transformam.

A ele, que desafia nossa percepção de nós mesmos, fazendo com que acreditemos que a visão refletida é a que os outros têm de nós, quando, na verdade, é apenas a nossa própria visão, porém diferente da que temos de nós mesmos fora do espelho, sem olharmos para ele, por dentro.

A ele que, sabiamente, nos carrega de volta à nossa insignificância quando, ao olharmos para ele, percebemos que ele também reflete o que está atrás, lembrando-nos que a invenção que tinha o objetivo de reproduzir a imagem humana e sua vaidade também reflete tudo aquilo que a circunda. Coisas feitas pelo homem ou não. Havendo luz, tudo.

A ele que, sendo assim, mostra-nos que, atrás de nós, as letras, as árvores, os quadros, a arquitetura, ficam todos inversos. Nem a nitidez sustentou a perfeição da imagem. Tudo ali está oposto. Não só diferente, mas contrário, antitético.

Eu, ao espelho, até então tão familiarizada com a imagem-irmã, percebo que ela é oposta. Busco, então, à companhia do espelho e de um espumante, a real imagem de mim mesma.

Ao espelho, um brinde ao espelho.

 



Escrito por Bruna às 13h37
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SER-HUMANO, ERRATA, SER HUMANO

Seres inacabados, passíveis de erros, sujeitos a falhas, criaturas em constante evolução. Todos nós assim somos e admitimos isso com um comodismo passivo, tendo como desculpa na ponta da língua todo esse discurso ao ouvir a primeira crítica. A qualquer coisa. A qualquer hora. Por qualquer motivo.

O ser-humano tem o costume de se aproveitar das situações. Aproveita-se, assim, até mesmo de suas falhas, de sua imperfeição. Argumento irrefutável, de certo, uma vez que quem o ouve para e pensa: “é mesmo, também sou imperfeito”.

O fato é que não buscamos a perfeição; fugimos dela. Até porque, em nosso subconsciente, já está implícita a ideia de que a perfeição dá trabalho. Gandhi, Chico Xavier, Madre Tereza de Calcutá e o próprio Jesus Cristo não foram pessoas com muita paz. Não poderiam, por exemplo, encostar a cabeça no travesseiro e esquecer os problemas do mundo. Muito menos torrar seus salários em coisas supérfluas. Muito menos ter salários.

Os perfeitos não podem ser felizes, não podem viver, portanto também não podem errar. E é por isso que ninguém é perfeito e ninguém quer ser.

Os que se denominam perfeccionistas apenas latem a perfeição para encobrirem seus erros. Muito mais fácil dizer que gosto de tudo certo, pois assim os outros atentarão para os meus acertos. E, quando eu fizer algo de errado, há até quem se sensibilizará comigo por eu não ter alcançado a minha almejada perfeição. “Coitado dele, gosta de tudo tão correto, mas errar é humano, né?” Vez ou outra até conseguirei conselhos para não me cobrar tanto, tudo o que eu queria ouvir, uma confirmação de que até então o plano de só mostrar qualidades deu certo.

No lado oposto aos mascarados do perfeccionismo, há os extremamente errados, que se consideram a “ovelha negra”. Mascarados estes também, além de preguiçosos, pois, com o crachá de “ovelha negra”, fica fácil não precisar fazer nada certo, fica fácil não se esforçar. Ninguém espera muito de você, então você não precisa fazer muito, ou até nada, se quiser. A decepção não será grande. E, a cada repetido erro, o “eu não faço nada certo mesmo” serve como ponto final. Ou vírgula, já que logo à frente haverá outro erro.

Há também a pior das espécies: a dos humanos que se vestem de seus erros. “Sou assim e ponto.” Um dia descobriram que aquele erro era muito difícil de ser mudado e resolveram incorporá-lo à personalidade. Anunciam a quem quiser e não quiser ouvir que são assim e não há como mudar. Como se anunciassem a cor da pele ou a filiação. Escondem, na verdade, além da preguiça de tentar mudar, a carente vontade de que os outros gostem deles “apesar dos pesares”, além do egoísmo de quererem ser aceitos sem aceitarem críticas.

Se a busca pela perfeição é tola e o reconhecimento dos erros mostra caminhos tortos, a solução ao ser-humano inacabado, passível de erros, sujeito a falhas, é ser realmente uma criatura em constante evolução, no sentido mais genuíno da palavra.

Lembrando que evolução é diferente de progresso. É possível que haja a primeira sem que haja o segundo. Evoluir não significa progredir sempre ao ponto de não mais errar, ou quase não errar. Evoluir significa passar por etapas, estágios, aprendizados. Apanhar da vida, acertar, errar. Sim, errar. Aprender, ou simplesmente não aprender. Mudar, ser diferente, nem sempre melhor.

Em quantas coisas somos melhores hoje! Mas em quantas outras fomos melhores aos 5 anos de idade! Não melhoramos em tudo. Aprendemos a respeitar mais os outros, mas desaprendemos a arte de confiar cegamente no ser-humano. Aprendemos a valorizar nossos pais, mas desaprendemos a enxergá-los como heróis. Aprendemos a trabalhar, mas desaprendemos a não fazer nada pelo puro prazer de não fazer nada. Aprendemos a aceitar nossos erros. Falta desaprendermos a viver sem pensar em quantos ponto positivos ou negativos estamos adquirindo ao longo da vida.

Isso é evolução. Nem em tudo progredimos. Evoluiremos simplesmente. Evoluiremos sempre.

Falta sermos menos perfeitos, mas também menos errantes. Falta ao ser-humano ser humano.


 



Escrito por Bruna às 15h16
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UMA VÍRGULA

Ela começava a se embebedar. As únicas atribuições dele eram ouvir, franzir a testa quando não entendia algo e colocar mais vinho. As taças estavam encaixotadas. O vinho parecia não ter o mesmo gosto no copo americano. Tinha gosto de vinho barato.

- Essa porcaria vai me dar dor de cabeça – disse ela, afastando o copo de si.

Ele então colocava mais um pouco sem tirar os olhos dela, sem colocar os olhos no que estava fazendo, e dizia que era o chileno de sempre. Que bebesse e continuasse.

Ela continuava ininterruptamente. Falava sobre as coisas encaixotadas, sobre os seus CDs de Bossa Nova, sobre a conta conjunta, sobre o que bebia e sobre a tristeza que a embebia. Os seus cabelos desgrenhados já davam sinal de que o vinho estava demais. A conversa também.

A testa dele agora estava fotograficamente franzida. Minutos de silêncio desenhando um franzido cada vez mais profundo. Ela, com a cabeça baixa, envolvendo uma mecha de cabelo no dedo indicador e soltando, envolvendo e soltando, enquanto olhava a ponta dos sapatos de salto por debaixo da mesa, pensava que o táxi já estava prestes a chegar.

Levantou a cabeça com tudo, agarrando-se no copo e virando o vinho como se fosse barato, como se não fosse vinho. Encheu as bochechas e engoliu. O barulho do líquido dilatando a garganta estreita dela fez com que ele desfizesse o franzido para olhá-la. Conseguia ainda olhar com ternura a mulher bêbada, esvaziando o copo masculinamente. Agarrou a garrafa quase vazia e ofereceu:  - Outro, amor?

Ela, levantando-se enquanto batia o copo na mesa, finalizou: - Não. Outro amor.

 



Escrito por Bruna às 17h14
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("Descanso", de Edmilson Costa)

 

ANSIOSA POR SER OCIOSA

O ócio ainda não chegou a mim.  Dizem que preciso dele para escrever. Mas há um congestionamento metropolitano de ideias e afazeres que, mesmo que longínquos e ainda sem datas definidas, impedem-me de dar boas vindas ao ócio. As únicas construções que me permito ter ultimamente são as curtas, que se encaixam na pobre rapidez de uma rede social. Não que eu pense que as curtas são as pobres, mas eu preciso das longas. Sinto falta de escrever parágrafos, de coordenar e subordinar orações. E então, só depois, considerar a concisão e passar alterando tudo, enxugando, mexendo, brincando. Gosto tanto disso.

Sempre há algo a ser feito, de uns anos para cá. Não tenho mais a sensação de encostar a cabeça no travesseiro e deixar o sono vir por que outro dia é outro dia. Automaticamente, quando penso no outro dia, uma lista de deveres se antecipa ao sono. E quando ele vem, vem torto, desengonçado, entrecortado por pesadelos e um dos itens da lista, ou mais de um, ou ela toda.

Não, e não me venha com “ócio criativo”! Qualquer criação é trabalho. Quero o ócio vadio, vagabundo, de poder esticar as pernas e olhar para o teto. De me sentar na porta de casa e ficar olhando o nada. Ou então não olhar nada, e sim dormir. Acordar, visitar a geladeira, dormir de novo. Dar-me ao luxo de assistir a uma porcaria na TV, daquelas em que não é preciso pensar.  Colocar um CD antigo e escutar sem pular as músicas. Ler não daria certo, eu pensaria em gramática e estragaria tudo.

Se esse ócio realmente viesse de presente, tentaria fazer tudo isso ainda antes de escrever. Tenho vontade de criar personagens e parar de escrever sobre o quê escrever. Escrever, então, necessita mais do que o ócio sinônimo de folga, que me parece temporário demais. E não quero falar em inspiração. Não é bem isso. Falta que seja algo que eu possa fazer sem culpa, sem a ideia de que estou gastando um tempo que não deveria gastar. Que fosse como esticar as pernas e olhar para o teto. Que fosse como encostar a cabeça no travesseiro e deixar a escrita vir livre, nem torta, nem desengonçada. Vadia, vagabunda.  

Que não fosse para acalmar minha inquietação, mas para inquietar minha calma.



Escrito por Bruna às 01h39
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SONHO TRAIDOR

Resta saber se é mimo ou sonho

A causa pela qual luto.

Meu luto me trouxe até ela

Ou a transformou num simples vulto?


E se for mimo, que eu me desmime.

E se for sonho, que eu não desanime.


As arestas do meu cérebro vivo

Estampam a labuta que me rouba o tempo

E também o lazer que o tempo me rouba

Além do estudo com que hoje brigo.


E se for mimo, que eu desanime.

E se for sonho, que ele me mime.



Escrito por Bruna às 13h44
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NA PONTA DOS DEDOS

 

Tamborilava os dedinhos no teclado do computador, procurando desviar pensamentos sobre o que considerava inútil pensar. Não sabia mais se acreditava em destino, ou se ela poderia desenhar seu próprio caminho, ou se tudo não passava de acaso.

As janelas do bate-papo pulavam na tela, como se a requisitassem. Era monossilábica com os contatos. Não sabia muito bem falar com os outros pelos dedos. Nunca fora muito bem em Português, portanto sempre era mal interpretada por não saber utilizar os sinais de pontuação a favor de que parecesse mais ou menos simpática.   Escrevia com paixão do mesmo modo que escrevia com raiva. Nem uma maiúscula, nem umas reticências para denotar mistério, nada. Ponto final. Só.

As conversas nunca passavam de três minutos. Desistiam dela. Pessoalmente, insistiam nela. Por mais que seus dedos não soubessem se expressar, tudo nela era expressivo demais. Sua beleza...expressiva demais.

Assim um desconhecido a elogiou no bate-papo virtual, observando sua foto. Ela entendeu por “beleza expressiva” que possuía traços faciais muito exagerados e não gostou do galanteio.

Sentia-se, dessa vez, à vontade para criar sua própria personagem. Pensou mais e descobriu que se revelar a fundo seria melhor. Até porque, era tão complexa que pareceria uma personagem àquele desconhecido.

Mostrou-se toda, aumentou o ritmo das tamboriladas. Contava ao desconhecido o que não contava a ninguém. Revelava intimidades, confiava segredos, fantasias e medos. Nem se importava em mentir seu nome. A vontade de sê-la mesma era maior que a desconfiança. Desconfiava, mas pensava que o desconhecido duvidava de tudo o que ela dizia. Até mesmo da foto, tão bonita que parecia uma montagem...”expressiva demais”. Fingir personalidade era o que já fazia muito no mundo real.

O desconhecido era de uma cidade desconhecida. Marcaram encontro. Ela, que já se desnudara tanto, teria agora que se virar do avesso e revelar endereço e telefone. Não havia medo do desconhecido. Havia medo de deixar confirmar, pela primeira vez, que era tudo verdade. Que era ela mesma, que a dona dos escritos era a mesma da foto, que era a mesma de seu íntimo. Era ela mesma pela primeira vez.

A conversa face a face se desenrolava com a naturalidade que ela tanto procurara em vários momentos de sua vida. O tamborilar dos dedos agora tocavam o corpo do desconhecido, num ritmo menor, numa intensidade maior.

Fixou seus olhos nos do desconhecido, depois do êxtase, feliz por sentir-se viva e digna de si mesma. Paralisada naqueles olhos, sentir-se-ia piegas se dissesse ao desconhecido o quanto estava transbordando de sabe-se lá o quê.

O namoro aos olhos dele passou de três minutos. Novamente, viu-se monossilábica. O reflexo de seu rosto nos olhos dele parecia...talvez expressivo demais. Era ela mesma com um desconhecido. Não sabia se por destino, se por desenho de seu próprio caminho, ou se por acaso. Considerava inútil pensar.



Escrito por Bruna às 19h02
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